"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector).







segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Déjà-vu

Fato
Do passado
Em presente
Loucura
Na estranheza
De que...
Tudo
Se foi
E voltou
Para assombrar

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Visitas

Os passos que ficaram para trás retornam incansavelmente todas as manhãs à porta do meu castelo de areia. Eles trazem bagagens junto de si, pedaços de personalidade que insistem em assombrar-me por afetos e desafetos. Intoxicado pela memória que dilacera minha atenção presente, resta render-me aos encantos dos fatos transcendentes: maldita intocabilidade que lhes garante roupagem original, sem o futuro-presente retoque do arrependimento – do suposto perdão.

Às tontas, debato-me na inexistente fuga desta dor: hora tão prazerosa, hora tão cancerígena. Meus ossos saltam para fora de meu corpo e fogem amedrontados. Neste rastro de desespero, fuligens de cálcio dissipam-se ao vento, e a viscosidade de meu tutano escorre sobre estradas e calçadas. Onde pés anônimos, sem alguma pretensão, arrastam minhas glórias e vergonhas pelas estradas de suas próprias vidas.

Com perspicácia, as experiências retornam trajadas de bruxas e princesas.

No olhar perdido, nos lábios ressequidos, no fluxo frenético sanguíneo, memórias que assaltam e levam para longe a razão, a sobriedade. Nem mesmo o clássico balé atemporal do tempo consegue romper as ataduras desta incansável tirania. Ela trafega pela contramão na rodovia do passado: de casa em casa, de coração em coração.

Um casamento que a morte não traga por completo. Da sepultura emergirão sorrisos, abraços, perseverança, histórias, sonhos inacabados. A morte lhe coroa de formosura e lhe perfuma de recordações. No rodalho póstumo, segue dando forma ao barro que ao pó já retornou. Extrai, da sequidão das almas, as raríssimas lágrimas; são primícias de um caráter oculto.

Sorrindo despreza ditados e sufoca doutrinas intocáveis; ruge em suas próprias leis.

Os amantes... Os eternos: buscam-na em todas as praças e esquinas das cidades. Os poetas... Os de pé: repousam em seus braços de dia e de noite e deliciam-se em seus fartos seios durante toda a sua inspiração. Em berço de ouro, em cama de palha; em descanso, em fatiga. Sua presença atrai riso e choro; amor e ódio; cura e doença; vida e morte. Dos céus desce bem trajada. Do inferno surge maltrapilha. É adoravelmente santa, é detestavelmente profana: é saudade!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Provérbios capítulo 18 versículo 24

No templo,
sentam-se: irmão e amigo.
Não ore a prece antes desta
divina revelação: irmão ou amigo.
Ouvindo-o, o amigo, lhe presenteara de
amor e misericórdia divina.
Silencie as balbucias paroquiais,
as mais baixas – da intimidade.
Repare a irmandade,
onde a religião tem regido as relações:
Pedra, pau e fogo.
Em nome de Deus.
Amém!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A rua da minha saudade

Revi, senti, e vivi. O passado intocável que traz aos olhos a primícia das lágrimas. Novamente pisei sobre o solo sagrado de minha infância que, outrora, meus pequenos pés correram, escorregam, toparam. Suspirei profundamente para buscar o frescor da mata serrada, cortada, esmagada pelos passos afoitos daqueles que brincavam como se as horas não existissem. Vieram à tona as alegrias de minha tenra idade: os muros, as casas, as árvores, a rua.

Lembrei-me das goiabeiras lotadas de seus suculentos frutos avermelhados que, como quem acenasse, convidava todos para uma empolgante reunião pendurados em seus longos galhos. Lembrei-me do assombroso bambuzal ao lado da rodovia, o qual crescia vertiginosamente ao som dos muitos carros, motos e caminhões. Lembrei-me do puçá, da vara, da tarrafa que, jogada às águas barrentas do riozinho, esperava por mais uma pobre e atordoada Traíra. Lembrei-me do campinho, o palco dos clássicos, dos chutes, das cabeçadas, e claro, dos tapas e arranhões. Lembrei-me do trepidar da lenha na fogueira inflamada com o mais alto fogo; fogo que aquecia e abraçava a todos nas noites frias de São João.

Meus olhos brilham e meu coração enfraquece ao revisitar momentos intocáveis como estes.

O mesmo pó que pairava sob a frenética corrida de bicicletas, ao ensurdecedor barulho de tampas de margarinas em suas rodas, ainda hoje, mancham portas, janelas, e portões. Lembrei-me das partidas de futebol, disputadas com suas respectivas traves feitas com chinelos havaianas desgastados. Descalços, em meio a cacos e pedras, a alegria inundava toda vizinhança. Os portões e muros tornavam-se arquibancadas, onde os curiosos pais, mães, tios e tias, apreciavam nossas jogadas. E nós, os meninos sem vanglórias e prepotências; com camisa ou sem camisa, suávamos em busca dos aplausos bajuladores daqueles que nos assistiam; pudera eu voltar no tempo.

Se houvesse possibilidade, pediria este presente a Deus: voltar e rever meus amigos, ainda pequenos, na rua da minha saudade, na estação da minha infância, na sublime e leve vida de menino. Vestiria novamente minha bermuda, meu boné, meu kichute. Berraria novamente o nome de todos os meus amigos em seus respectivos portões, anunciando a brincadeira do dia. Subiria novamente em minha pequena bicicleta vermelha, e com meus lábios, balbuciaria arrancadas, freadas, buzinadas e emoções:

- ACELEEEERA AYRTON!

Repetiria tudo de novo. Brigaria novamente e fugiria novamente, tendo a certeza que o sono noturno levaria para longe toda e qualquer raiva de nossos corações. Pela manhã, nossa amizade continuaria a mesma.

As profundas e irreparáveis cicatrizes de minha infância, ainda inflamam de saudade de todos aqueles pequenos. Em meio às dores destas lembranças, flambado em mornas lágrimas, compreendo e aprecio as palavras do saudosista cantor que, ao som de sua chorosa viola, poetiza: “A saudade é uma estrada longa / que começa e não tem mais fim / suas léguas dão volta ao mundo / mas não voltam por onde vim / A saudade é uma estrada longa / que hoje passa dentro de mim / me armei só de esperança / mas usei balas de festim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

... toque em frente

video

Almir Sater: Tocando em frente

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Inquietação

O Espírito me sonda e revela.

Meus olhos estão ressequidos, minhas pálpebras insistem em não trabalhar; este recesso me causa cegueira.

Meus lábios pálidos e trêmulos, escondem verdades que inflamam minha língua.

Meus dentes cerrados aprisionam a mais feroz de todas as feras, a mais indomável de todas as serpentes, a menor de todas as flamejantes fagulhas, capaz de incendiar florestas com um único bafo.

Minhas pernas trepidam, enquanto meu coração flui rios de sangue ao meu corpo que, emudecido, ignora tão grande esforço.

Minhas mãos frias, repetidamente, esfregam-se uma à outra, procurando uma leve mornidão para aquecê-las e acalmá-las.

Meu peito aperta sufocando-me como alguém que, ao finalizar o nó de seu cadarço, prepara-se para uma longa caminhada.

Falta-me ar, as minhas forças mergulham em busca de refrigério; o sonhado refrigério de uma presa sufocada por seu predador.

Por mais que sejam mínimas as chances de sobrevivência, meus pulmões exaurem o desesperado suspiro; o derradeiro suspiro:

- Senhor! Perdoa-me!

Estou me olhando por dentro.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Contigências

Na manhã,
o sol escaldante rompe o
suspiro criativo do ser. O mesmo sol
que precede a tarde chuvosa, de
lágrima intensa e lamuriosa. O ser
calado clausura a ânsia em seu peito:

- Deus onde estás?

A rosa traz consigo a alegria em
belo adorno vermelho - a cor do amor.
O que diz do pecado: ainda não vivera do amor.
Da rosa, os espinhos que antecedem o ardume
do ferimento. Da ruptura emergem lágrimas
sangrentas - o sofrimento do amor. O ser
calado clausura a ânsia em seu peito:

- Deus! Ainda assim, obrigado pela vida!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cruz

Esta sim, tornou-se a propiciação dos desejos desenfreados dos homens. A luz para os que buscam a felicidade material. A resenha dos sonhos ufanistas, daqueles que ousam em sonhar alto, muito alto. O emblema da felicidade autêntica, da felicidade instantânea. O escudo que dilacera os inimigos. O amuleto das finanças seguras. A proteção dos pescoços desavisados. O esconderijo dos pecados dos pecadores não arrependidos.

Das várias formas que se deu a ela, a sua essência se perdeu. A cruz está alegórica e já não possui literalidade. Para onde foi o seu escândalo? O cálice tão pesado a Jesus, tornou-se símbolo benévolo de uma sociedade triunfalista que determina sobre as chagas do Cristo crucificado as suas bênçãos. Esta cruz antes tão odiada e rejeitada, agora, tão desejada e idolatrada. Constantinos ainda emergem da imortal religiosidade bradando: “Por este sinal venceremos! A tudo e a todos”. Não há mais quem se envergonhe, não há quem seja perseguido. A mensagem do calvário fora dilacerada pelo pragmatismo gospel e pela excentricidade da sociedade “cristã” ante ao Evangelho.

Recebe-se Cristo, porém, ignora-se a cruz da ignomínia. Ouvem-se gritos: “Queremos Cristo!”; porém, ouvem-se lamúrias: “Mas, não a Sua cruz!”. Logo, ouve-se uma solução funesta: “Aqui existe um Cristo sem cruz!”.

Em meio ao desprezo do discipulado da cruz de Cristo. Em meio à tentação de abandoná-la, surge um grito da reforma, um eco de suas teses[1], sobre uma geração que desconhece o valor e peso do discipulado da cruz. “Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo “Paz, paz!” sem que haja paz!”[2]; “Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!”[3].

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[1] As 95 teses de Lutero na Reforma Protestante.
[2] Tese nº 92.
[3] Tese nº 93.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Lei e vida

Contam lá uma história
de um religioso fervoroso em seus deveres.
Filactério no braço e finais de semana,
[na testa.
Lia-se em graves letras: NÃO MENTIRÁS.
Um companheiro de passagem, judeuzinho, franzino,
barba feita, contava a história de uma quase mortal
visita de um enrugado nazista em sua casa,
em meados de 1942.
Ainda hoje,
suas palavras repetiam-se em mesmo tom da resposta
dada a funesta visita:
- Mamãe não está!
Ainda mais o religioso apertava suas fitas em seu braço, recitando:
[NÃO MENTIRÁS.
Cravando a caixinha em sua pele avermelhada,
mordia os lábios e torcia com força,
na busca de não torna-se um mero
[franzino pelado judeuzinho.
De passagem,
ao contar a sua conhecida história,
debandava ao cemitério; sua mamãe
havia falecida pouco mais de um ano.
- Lírios eram suas flores; brancas como sua pele;
perfumadas como seus abraços.
Em seus olhos, fronte a lápide,
as lembranças emergiam posteriores aquela visita.
Balbuciando recitava:
- Agora sim, mamãe não está!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Uma confissão

A fraqueza me assusta. Bem no fundo... a sociedade religiosa me assusta. A fraqueza é inata a minha natureza e por demais conhecida por meus membros. Não há escapatória para a minha razão. Do que adiantaria gritar: sou forte! Pois, minhas mãos esticam-se em busca de impurezas, meus pés correm ao desfiladeiro dos perdidos, meus pensamentos secretos deflagram meu coração corrompido.

As minhas necessidades desfalecem meus joelhos; trêmulos eles se dobram ante meu limite. A angustia suga minhas forças, as que ainda me restam. O clero intolerante me ignora. Esta é minha cicatriz aberta. O sistema eclesiástico varre feito rodo os pequenos debilitados e improdutivos para a engrenagem do legalismo ferrenho.

Sigo tímido, calado.

Confessar minhas fraquezas torna-me réu público. Por certo, meus olhos serão perfurados, minhas mãos amordaçadas e meus pés acorrentados. Em cárcere: serei vilão, imundo, indigno e solitário.

Do que ainda me resta...

Na prisão do gélido amor, entre as grades do farisaísmo religioso, em frente a fétida janela da falsa perfeição humana, gritarei: Sinto prazer em minhas fraquezas! Que o Vento incontido sopre e leve para longe a resposta de meus gritos. Que todos os ouvidos deste mundo possam ouvir o sussurro do Eterno que, suavemente, acaricia minha alma dizendo: a minha graça te basta!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Da amizade

Amigo é âncora em mar revolto; é bálsamo para as maiores dores e cólicas existenciais. O verdadeiro amigo não necessita falar, gesticular ou abraçar. Apenas a sua presença preenche todo o silêncio causado pela falta de lamentação ou alegria. Um simples almoço com o seco ruído dos talheres, faz deste almoço um refúgio; a verdadeira amizade tem esta capacidade.

Abraão o amigo de Deus. Sua confiança lhe foi imputada como justiça e como amizade verdadeira. O amigo é verdadeiro e profundamente cúmplice: dos erros e acertos. A amizade rompe com a barreira da vaidade. A vaidade de ser aceito e bem quisto. A vaidade da vanglória, dos pódios e das declarações demagogas. O verdadeiro amigo não saberia soletrar vaidade; tal palavra foge ao seu conhecimento.

Nas montanhas da vitória, o amigo se faz presente e ausente, pois respeita o limite e sabe muito bem que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. No vales das derrotas, o amigo aspira companheirismo e solitude; a verdadeira amizade sabe a hora “off”, o momento “zen”; no Getsêmani, por um momento, por amor: ausente-se de corpo. Porém, na descida, logo retorna aos braços agonizantes da aflição compartilhada do amigo.

O verdadeiro amigo sabe a hora, conhece os passos, percebe os aromas e liga os momentos. Contudo, acima de tudo, o amigo vence a sua própria vaidade. Na cumplicidade do coração, o amigo expurga a vaidade e esquece de sua existência. Amigo que é amigo é amigo até debaixo da água: doce ou amarga.

A vaidade?

Nunca ouvi falar!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

... minha proposta

Permita-me ousar todos os meus conceitos e preconceitos. Esboçar minhas razões de uma vida pouco vivida. Enlouqueço só em pensar de parar com os textos, em silenciar minha voz traçada, pintada, lida - talvez - relida.

Meu ímpeto é de um aventureiro que busca encontrar um atracadouro seguro, perto de águas mansas e brisa suave; daquela que é incapaz de levar para longe a vida que pulsa em meu peito.

Minhas perícopes borbulham acidez, suavidade, amor, carinho, ódio, paixão... lucidez e coragem fazem coro ao meu dia a dia. Assim como minha filha que não entrega a brincadeira pelo sono, desejo não entregar minha escrita à covardia.

Busco um lugar onde as palavras falem por mim, onde minha escrita revele meu interior sagrado e profano. Percorro este caminho, sinto a proposta a mim apresentada e não desejo mais fugir. Espero que a poesia esteja ao meu lado; careço dela – desejo sua companhia.

Minha proposta ainda respira: uma busca... um sentido... uma visão... algumas idéias.

Enfim... voltei!