"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector).







sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Visitas

Os passos que ficaram para trás retornam incansavelmente todas as manhãs à porta do meu castelo de areia. Eles trazem bagagens junto de si, pedaços de personalidade que insistem em assombrar-me por afetos e desafetos. Intoxicado pela memória que dilacera minha atenção presente, resta render-me aos encantos dos fatos transcendentes: maldita intocabilidade que lhes garante roupagem original, sem o futuro-presente retoque do arrependimento – do suposto perdão.

Às tontas, debato-me na inexistente fuga desta dor: hora tão prazerosa, hora tão cancerígena. Meus ossos saltam para fora de meu corpo e fogem amedrontados. Neste rastro de desespero, fuligens de cálcio dissipam-se ao vento, e a viscosidade de meu tutano escorre sobre estradas e calçadas. Onde pés anônimos, sem alguma pretensão, arrastam minhas glórias e vergonhas pelas estradas de suas próprias vidas.

Com perspicácia, as experiências retornam trajadas de bruxas e princesas.

No olhar perdido, nos lábios ressequidos, no fluxo frenético sanguíneo, memórias que assaltam e levam para longe a razão, a sobriedade. Nem mesmo o clássico balé atemporal do tempo consegue romper as ataduras desta incansável tirania. Ela trafega pela contramão na rodovia do passado: de casa em casa, de coração em coração.

Um casamento que a morte não traga por completo. Da sepultura emergirão sorrisos, abraços, perseverança, histórias, sonhos inacabados. A morte lhe coroa de formosura e lhe perfuma de recordações. No rodalho póstumo, segue dando forma ao barro que ao pó já retornou. Extrai, da sequidão das almas, as raríssimas lágrimas; são primícias de um caráter oculto.

Sorrindo despreza ditados e sufoca doutrinas intocáveis; ruge em suas próprias leis.

Os amantes... Os eternos: buscam-na em todas as praças e esquinas das cidades. Os poetas... Os de pé: repousam em seus braços de dia e de noite e deliciam-se em seus fartos seios durante toda a sua inspiração. Em berço de ouro, em cama de palha; em descanso, em fatiga. Sua presença atrai riso e choro; amor e ódio; cura e doença; vida e morte. Dos céus desce bem trajada. Do inferno surge maltrapilha. É adoravelmente santa, é detestavelmente profana: é saudade!

3 comentários:

Anônimo disse...

ARREPIOU!

Parabéns por escrever com a alma :)

Gi!

Vitor Hugo da Silva - Joinville, SC disse...

Valeu Gi!

Obrigado pela sua ilustríssima visita a este BLOG.

Um abraço!

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Natal agradável, harmonioso e com sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com