"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector).







terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Revendo os comentários (Lições Bíblicas).

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Da comida sacrificada a ídolos: A carta circular dos apóstolos é bem clara: “Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos” (At. 15: 29). Terá essa recomendação alguma serventia para nós hoje? Além das festas juninas e dos doces distribuídos no dia de Cosme e Damião, há muitos banquetes consagrados aos deuses das riquezas, às divindades do poder corrupto e corruptor, a aos demônios da permissividade moral e do relativismo ético. Outrossim, cuidado com os restaurantes que, logo de entrada, expõem sua divindade como se fora mero folclore. Não é folclore; é demônio mesmo.

Citação retirada da: Lições Bíblicas, 1º trimestre 2011, CPAD, lição 11, p. 81.
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Custo em acreditar que um comentário como o citado acima ainda perdura no seio teológico pentecostal - diga-se acadêmico. Obviamente que existe um planejamento referente aos trimestres anuais antecipadamente. Contudo, como deixar que algo tão arcaico, no sentido explicativo de conceito de Evangelho, possa ser editado. Fiquei ainda mais admirado em analisar a mesma lição e constatar que foram gastas cerca de quinze palavras para explanar sobre o conceito de Graça. Assunto objetivamente e subversivamente central dentro do concílio de Jerusalém.

Sinto-me menosprezado por tal comentário e sinto que o povo continua sendo, seja, visivelmente ou invisivelmente (aposto neste caso!), controlado de forma infantil. Um comentário como este nem mesmo leva em consideração outras citações concernente ao mesmo assunto. Simplesmente ignoram passagem como:

Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; Proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças; Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada. (I Tm. 4: 1 – 5 – Grifo meu)

Há um grande paradoxo dentro deste tema. O pentecostalismo critica avidamente o pseudo-pentecostalismo (neo-pentecostalismo) devido suas liturgias estranhas à verdade de Evangelho como, o copo de água com oração. Contudo, ensinamos que um alimento consagrado aos outros ídolos (demônios) que, segundo Paulo, para nós “o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um”, poderá afetar nossa espiritualidade (comunhão), moral (permissividade moral: citado pelo autor do comentário) e obscurecer nossa ética cristã (relatisvismo ético: citado pelo autor do comentário). Paulo ainda afirma: "Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta". E Ele continua: “Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. (I Co. 8: 1 – 13 – Grifo meu). Apaga-se de forma consciente os ensinamentos do próprio Cristo, nosso Senhor que afirmou: "Não há nada fora do homen que, nele entrando, possa torná-lo impuro" (Mc. 7: 15 - NVI - Grifo meu). Por favor, a expressão, "não há nada", não se trata de uma hipérbole, a sua literalidade é vital dentro deste contexto. Até quando esconderemos do povo que "o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm. 14: 17 - Grifo meu).

O pentecostalismo precisa de mais clareza do Evangelho concernente a liberdade concedida pela Graça. Não me reporto a liberdade de sentido pejorativo, mas sim a verdadeira liberdade proveniente da salvação; do Espírito Santo que tanto enfatizamos. Paulo fora um assíduo defensor da graça, contudo, o que fora comentado na lição reserva-se a isto:
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Da salvação pela graça: Deixam os apóstolos bem patente o seu apoio ao evangelho que Paulo proclamava aos gentios: a salvação pela graça (At. 15: 1).

Citação retirado da: Lições Bíblicas, 1º trimestre 2011, CPAD, lição 11, p. 81.
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O sistema predominante no meio pentecostal, depressivamente, é farisaico. É externo e discriminador. O bom senso é menosprezado e o equilíbrio é tido como perigoso. Com isto, duvida-se do poder transformador do Evangelho e da Graça salvadora de Cristo. O reflexo é visto claramente nestes comentários. Seria uma grande oportunidade às lições Bíblicas ensinarem o amor e o equilíbrio e a não discriminação como Paulo bem ensina em seus escritos. O povo, obviamente, destituídos de materiais teológicos e amordaçados sob pena de rebeldia, cala e consente, inocentemente, com tamanho absurdo.

Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados. (Tito 1:15)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Coerência

Coerência que lhe quero entender, absolver, viver: fatos e ideais.

Se devo fazer, porque não faço? Se está errado, porque não reajo? Se está podre, porque não enterro?

Tímido pela morbidez de minha covardia estonteante, espanto a coerência que me rodeia e escondo-me sobre o monte da argumentação. Que falsa segurança, um castelo de areia em frente a um mar revolto.

Silêncio...

Escute-me agora: há uma única coerência em meio a várias argumentações. Morrendo a coerência, morre a alma; morrendo a argumentação, nascem-se outras.

Não há limite para as argumentações!

A coerência... Sim, a coerência.

Por vezes a encontro sob os montes de lixo das argumentações que me acomodam. Horas chamo estes montes de negligência, mas quem se importa. Enquanto ela permanecer lá embaixo e enquanto minhas argumentações forem convincentes, sigo os passos... Ainda ouso em recitar: “Only God can judge me!”.

A coerência enobrece o coração e dignifica a vida.

É isto!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mistério

A vida...
Aprendida no decorrer
da história – na brevidade do suspiro.
Na longa caminhada,
não há fim para as perguntas.
A resposta cala a ânsia da
busca, aprisiona os passos,
decepa as assas;
encobre os medos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poderes podres (J. B Libânio)

Um poder tanto mais se corromperá quanto mais poderoso se considerar e distante estiver de qualquer olhar. O segredo maior da corrupção do poder reside na sua arrogância. Lord Acton forjou célebre axioma no mundo político: "Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente". Se todo poder se adultera, o poder fechado nele mesmo, manipulando os servidores, ocultando ao máximo as ações sob diferentes véus, perverte-se ao extremo.

Homens, vestidos a rigor, assentados em altos tribunais ou nas Câmaras e Senado, escondem manobras venais sob a aparente solenidade distante em face das pessoas. Os tronos ocultam muito crime, sem-vergonhices ilimitadas. Jesus, na simplicidade de camponês, ensinava: "Todo o que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas" (Jo 3, 20). As trevas dos lugares escondidos favorecem os escândalos.

O escondimento, a camuflagem, a inacessibilidade alimentam o agir inescrupuloso dos poderosos. Mas a origem da podridão encontra-se alhures. A experiência humana e os ensinamentos de Jesus nos levam a compreendê-la. O poder possui dinâmica interna que só pessoas de alto nível ético e de forte convicção não se deixam arrastar. Em que consiste tal força avassaladora? À medida que alguém ascende ao poder, percebe-se posto em situação de altura e de maior possibilidade de dispor das coisas e das pessoas. No alto, os de baixo bajulam-no, cobrem-no de elogios, seduzem-no com propostas lisonjeiras. E, assim inflado, crê-se importante e, aos poucos, acima de toda suspeita. Pequeno passo para cometer as maiores arbitrariedades. E, se surgem adversários, pessoas que lhe apontam o dedo, com o poder de que dispõem, alijam-nas facilmente do caminho. Então, não resta nada mais que a própria vontade.

O ser humano entregue unicamente a si mesmo, sem as barreiras da cultura e do outro, dificilmente resiste às tentações de desmandos que o satisfazem. Por isso, quanto maior o poder, quanto mais alta a posição, maiores os riscos das seduções, das armadilhas. Ninguém detém o poderoso e ele maneja os outros. A Escritura define o demônio precisamente como essa entidade que a ninguém se submete -não servirei, exclama ele em face de Deus- e que tudo possui. Tenta a Jesus dizendo: "Tudo te darei, se prostrado, me adorares" (Mt 4, 9). Imaginem alguém alcandorado no píncaro de uma instituição e que se volte para seus súditos e diga simplesmente: "Não servirei a ninguém e tudo vos darei, se me adorardes". Ao ser adorado, esquece a dimensão humana e se sobrepõe a tudo e a todos. Santo Inácio acrescenta, com certa ironia, depois disso vêm todos os outros vícios. Jesus apresenta uma única possibilidade de saída: se o poder se tornar serviço. Então as duas tentações desaparecem.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Déjà-vu

Fato
Do passado
Em presente
Loucura
Na estranheza
De que...
Tudo
Se foi
E voltou
Para assombrar

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Visitas

Os passos que ficaram para trás retornam incansavelmente todas as manhãs à porta do meu castelo de areia. Eles trazem bagagens junto de si, pedaços de personalidade que insistem em assombrar-me por afetos e desafetos. Intoxicado pela memória que dilacera minha atenção presente, resta render-me aos encantos dos fatos transcendentes: maldita intocabilidade que lhes garante roupagem original, sem o futuro-presente retoque do arrependimento – do suposto perdão.

Às tontas, debato-me na inexistente fuga desta dor: hora tão prazerosa, hora tão cancerígena. Meus ossos saltam para fora de meu corpo e fogem amedrontados. Neste rastro de desespero, fuligens de cálcio dissipam-se ao vento, e a viscosidade de meu tutano escorre sobre estradas e calçadas. Onde pés anônimos, sem alguma pretensão, arrastam minhas glórias e vergonhas pelas estradas de suas próprias vidas.

Com perspicácia, as experiências retornam trajadas de bruxas e princesas.

No olhar perdido, nos lábios ressequidos, no fluxo frenético sanguíneo, memórias que assaltam e levam para longe a razão, a sobriedade. Nem mesmo o clássico balé atemporal do tempo consegue romper as ataduras desta incansável tirania. Ela trafega pela contramão na rodovia do passado: de casa em casa, de coração em coração.

Um casamento que a morte não traga por completo. Da sepultura emergirão sorrisos, abraços, perseverança, histórias, sonhos inacabados. A morte lhe coroa de formosura e lhe perfuma de recordações. No rodalho póstumo, segue dando forma ao barro que ao pó já retornou. Extrai, da sequidão das almas, as raríssimas lágrimas; são primícias de um caráter oculto.

Sorrindo despreza ditados e sufoca doutrinas intocáveis; ruge em suas próprias leis.

Os amantes... Os eternos: buscam-na em todas as praças e esquinas das cidades. Os poetas... Os de pé: repousam em seus braços de dia e de noite e deliciam-se em seus fartos seios durante toda a sua inspiração. Em berço de ouro, em cama de palha; em descanso, em fatiga. Sua presença atrai riso e choro; amor e ódio; cura e doença; vida e morte. Dos céus desce bem trajada. Do inferno surge maltrapilha. É adoravelmente santa, é detestavelmente profana: é saudade!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Provérbios capítulo 18 versículo 24

No templo,
sentam-se: irmão e amigo.
Não ore a prece antes desta
divina revelação: irmão ou amigo.
Ouvindo-o, o amigo, lhe presenteara de
amor e misericórdia divina.
Silencie as balbucias paroquiais,
as mais baixas – da intimidade.
Repare a irmandade,
onde a religião tem regido as relações:
Pedra, pau e fogo.
Em nome de Deus.
Amém!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A rua da minha saudade

Revi, senti, e vivi. O passado intocável que traz aos olhos a primícia das lágrimas. Novamente pisei sobre o solo sagrado de minha infância que, outrora, meus pequenos pés correram, escorregam, toparam. Suspirei profundamente para buscar o frescor da mata serrada, cortada, esmagada pelos passos afoitos daqueles que brincavam como se as horas não existissem. Vieram à tona as alegrias de minha tenra idade: os muros, as casas, as árvores, a rua.

Lembrei-me das goiabeiras lotadas de seus suculentos frutos avermelhados que, como quem acenasse, convidava todos para uma empolgante reunião pendurados em seus longos galhos. Lembrei-me do assombroso bambuzal ao lado da rodovia, o qual crescia vertiginosamente ao som dos muitos carros, motos e caminhões. Lembrei-me do puçá, da vara, da tarrafa que, jogada às águas barrentas do riozinho, esperava por mais uma pobre e atordoada Traíra. Lembrei-me do campinho, o palco dos clássicos, dos chutes, das cabeçadas, e claro, dos tapas e arranhões. Lembrei-me do trepidar da lenha na fogueira inflamada com o mais alto fogo; fogo que aquecia e abraçava a todos nas noites frias de São João.

Meus olhos brilham e meu coração enfraquece ao revisitar momentos intocáveis como estes.

O mesmo pó que pairava sob a frenética corrida de bicicletas, ao ensurdecedor barulho de tampas de margarinas em suas rodas, ainda hoje, mancham portas, janelas, e portões. Lembrei-me das partidas de futebol, disputadas com suas respectivas traves feitas com chinelos havaianas desgastados. Descalços, em meio a cacos e pedras, a alegria inundava toda vizinhança. Os portões e muros tornavam-se arquibancadas, onde os curiosos pais, mães, tios e tias, apreciavam nossas jogadas. E nós, os meninos sem vanglórias e prepotências; com camisa ou sem camisa, suávamos em busca dos aplausos bajuladores daqueles que nos assistiam; pudera eu voltar no tempo.

Se houvesse possibilidade, pediria este presente a Deus: voltar e rever meus amigos, ainda pequenos, na rua da minha saudade, na estação da minha infância, na sublime e leve vida de menino. Vestiria novamente minha bermuda, meu boné, meu kichute. Berraria novamente o nome de todos os meus amigos em seus respectivos portões, anunciando a brincadeira do dia. Subiria novamente em minha pequena bicicleta vermelha, e com meus lábios, balbuciaria arrancadas, freadas, buzinadas e emoções:

- ACELEEEERA AYRTON!

Repetiria tudo de novo. Brigaria novamente e fugiria novamente, tendo a certeza que o sono noturno levaria para longe toda e qualquer raiva de nossos corações. Pela manhã, nossa amizade continuaria a mesma.

As profundas e irreparáveis cicatrizes de minha infância, ainda inflamam de saudade de todos aqueles pequenos. Em meio às dores destas lembranças, flambado em mornas lágrimas, compreendo e aprecio as palavras do saudosista cantor que, ao som de sua chorosa viola, poetiza: “A saudade é uma estrada longa / que começa e não tem mais fim / suas léguas dão volta ao mundo / mas não voltam por onde vim / A saudade é uma estrada longa / que hoje passa dentro de mim / me armei só de esperança / mas usei balas de festim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

... toque em frente

Almir Sater: Tocando em frente

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Inquietação

O Espírito me sonda e revela.

Meus olhos estão ressequidos, minhas pálpebras insistem em não trabalhar; este recesso me causa cegueira.

Meus lábios pálidos e trêmulos, escondem verdades que inflamam minha língua.

Meus dentes cerrados aprisionam a mais feroz de todas as feras, a mais indomável de todas as serpentes, a menor de todas as flamejantes fagulhas, capaz de incendiar florestas com um único bafo.

Minhas pernas trepidam, enquanto meu coração flui rios de sangue ao meu corpo que, emudecido, ignora tão grande esforço.

Minhas mãos frias, repetidamente, esfregam-se uma à outra, procurando uma leve mornidão para aquecê-las e acalmá-las.

Meu peito aperta sufocando-me como alguém que, ao finalizar o nó de seu cadarço, prepara-se para uma longa caminhada.

Falta-me ar, as minhas forças mergulham em busca de refrigério; o sonhado refrigério de uma presa sufocada por seu predador.

Por mais que sejam mínimas as chances de sobrevivência, meus pulmões exaurem o desesperado suspiro; o derradeiro suspiro:

- Senhor! Perdoa-me!

Estou me olhando por dentro.