"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente" (Clarice Lispector).







quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poderes podres (J. B Libânio)

Um poder tanto mais se corromperá quanto mais poderoso se considerar e distante estiver de qualquer olhar. O segredo maior da corrupção do poder reside na sua arrogância. Lord Acton forjou célebre axioma no mundo político: "Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente". Se todo poder se adultera, o poder fechado nele mesmo, manipulando os servidores, ocultando ao máximo as ações sob diferentes véus, perverte-se ao extremo.

Homens, vestidos a rigor, assentados em altos tribunais ou nas Câmaras e Senado, escondem manobras venais sob a aparente solenidade distante em face das pessoas. Os tronos ocultam muito crime, sem-vergonhices ilimitadas. Jesus, na simplicidade de camponês, ensinava: "Todo o que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas" (Jo 3, 20). As trevas dos lugares escondidos favorecem os escândalos.

O escondimento, a camuflagem, a inacessibilidade alimentam o agir inescrupuloso dos poderosos. Mas a origem da podridão encontra-se alhures. A experiência humana e os ensinamentos de Jesus nos levam a compreendê-la. O poder possui dinâmica interna que só pessoas de alto nível ético e de forte convicção não se deixam arrastar. Em que consiste tal força avassaladora? À medida que alguém ascende ao poder, percebe-se posto em situação de altura e de maior possibilidade de dispor das coisas e das pessoas. No alto, os de baixo bajulam-no, cobrem-no de elogios, seduzem-no com propostas lisonjeiras. E, assim inflado, crê-se importante e, aos poucos, acima de toda suspeita. Pequeno passo para cometer as maiores arbitrariedades. E, se surgem adversários, pessoas que lhe apontam o dedo, com o poder de que dispõem, alijam-nas facilmente do caminho. Então, não resta nada mais que a própria vontade.

O ser humano entregue unicamente a si mesmo, sem as barreiras da cultura e do outro, dificilmente resiste às tentações de desmandos que o satisfazem. Por isso, quanto maior o poder, quanto mais alta a posição, maiores os riscos das seduções, das armadilhas. Ninguém detém o poderoso e ele maneja os outros. A Escritura define o demônio precisamente como essa entidade que a ninguém se submete -não servirei, exclama ele em face de Deus- e que tudo possui. Tenta a Jesus dizendo: "Tudo te darei, se prostrado, me adorares" (Mt 4, 9). Imaginem alguém alcandorado no píncaro de uma instituição e que se volte para seus súditos e diga simplesmente: "Não servirei a ninguém e tudo vos darei, se me adorardes". Ao ser adorado, esquece a dimensão humana e se sobrepõe a tudo e a todos. Santo Inácio acrescenta, com certa ironia, depois disso vêm todos os outros vícios. Jesus apresenta uma única possibilidade de saída: se o poder se tornar serviço. Então as duas tentações desaparecem.

3 comentários:

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Vitor Hugo,

Graça e Paz!

O texto dispensa comentário sôbre sua importância e pertinência.

Parabéns pela postagem.

Um grande abraço!

Pr. Carlos Roberto

Anônimo disse...

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Mario Gonçalves disse...

O texto vem num momento oportuno aqui em Joinville-SC, hora de purificação das intenções. Todos somos interesseiros em menor ou maior grau, mas precisamos insistir em nos despir ao pé da Cruz...